O escritor português António Cabrita, autor do
romance "A Maldição de Ondina", recém-editado no Brasil pela
LETRASELVAGEM, enviou um comunicado aos brasileiros que, através de e-mails enviados
de todas partes do país, solidarizaram-se com ele em virtude de, por razões até
então inexplicadas, ter sido impedido de sair de Moçambique no último dia 9 de
novembro, razão pela qual o lançamento do romance, anunciado para o dia 16 de
novembro em São Paulo, teve de ser adiado para data ainda a ser definida, no
começo de 2012. Além do lançamento do romance, António Cabrita também viu-se
impedido de vir participar do Congresso Brasileiro de Escritores promovido pela
União Brasileira de Escritores, de 12 a 15 de novembro, em Ribeirão Preto/SP. A
seguir, o Comunicado do escritor:
ANTÓNIO CABRITA: COMUNICADO
Meus
caros amigos da União Brasileira de Escritores, queridos cibernautas que me têm
escrito, solidários com a minha situação, quero informar-vos que os problemas
que me impediram de ir ao Brasil se estão a resolver a contento, sem atritos
nem ondas alterosas, e que em fevereiro ou março poderei dar um salto ao Brasil
para relançarmos «A Maldição de Ondina» e darmos aquele papo que nos faltou.
Peço-vos que estejam serenos, como eu. E como a poesia é a única «liberdade
livre» que realmente nos faz viajar, aqui vos deixo, dedicando-vos, o poema que
escrevi esta noite.
OITO
VARIAÇÕES DE UM MELRO SUFI
1
Essa voz
que vem de dentro
É a voz
do mar.
Ela
pergunta-nos: onde está a morte?
Em que
naufrágio se perdeu?
Em que
banco de coral se dissimulou?
Dormem os
seus olhos na boca do lúcio,
Ou sob o
manto das medusas?
Onde está
a morte, tão mínima
Que temos
de a procurar no miolo das praias?
Reboam as
ondas sobre os seixos
E,
ouvidos os canários, perguntam-lhes:
Onde está
a morte?
Essa voz
que vem de dentro,
Que nos
exalta e recoloca
No
êxtase, como dentro de um vaso,
É a voz
do mar.
2
Quando
vejo alguém encantado com o abajur
Percebo
que cegou à luz,
Que um
reposteiro se interpôs
Entre ele
e o mar.
Eu felizmente
tenho os teus ombros
Que não
me deixam esquecer
Tenho a
minha boca que os declina
Em
colinas de jade.
Basta
mordê-las e a luz jorra
Criva-se
nos meus olhos,
Espasmódica,
láctea: reflui.
3
Como pode
haver uma ponte sem duas margens?
Olhou-a
dentro, descontaminando
A
fractura dos seus olhos?
Os
mistérios são verdes, como o electrão,
Como a
tua carne no duche.
O que
permanece intocado
Cabe
dentro das Suas mãos,
Mãos que
seguram as tuas.
A saída
do ar é Deus
Que te
alambaza de vinho.
Sacia-te,
antes de recomendar:
O gato
comeu o Espírito Santo,
Sorve-lhe
tu agora o coração.
4
É muito
difícil pôr a cabeça
De
lado. A cabeça
Do
cravinho
É mais
sã. Também à palavra
Às vezes
é preciso cosê-la
Ou
encapsulá-la no silêncio.
5
Só via
tinta preta
Onde
havia letras de um viço
Que
atapetava o chão de miosótis.
Nesse
verão amiúde
Raiou a
caligrafia de Deus
Nos olhos
da raposa.
Mas
estava incréu
Como pão
ázimo.
A sua
alma ia com a crina
Daquele
cavalo
Que
refulgiu como um cometa
No
incêndio do estábulo.
6
Quando o
estilhaço
Abre uma
cratera na cabeça
Do
soldado que estava ao teu lado,
Ter medo
é uma demasia Inútil.
Quando
acordas
Deslumbrado
pela mão que poisada
No teu
peito te desencordoa
O sangue,
ter medo
É uma
demasia Inútil.
Guarda as
moedas
Para as
atirares ao mar.
7
Há um
naufrago nos teus cabelos,
Arrasta-te
para cima.
O que é
plausível
É que a
cereja na sua boca
Faça de
mim um homem diferente.
Há um
naufrago na tua aorta,
Arrasta-te
para o sol.
8
Nunca o
meu coração foi tão verde
E vibra
como a prancha da piscina que folgou.
Aflui a
mim a paisagem,
Manancial,
anelo, no sonho de despertar Contigo.
E sou
quase feliz.
Só não
sei onde cresce o ruibarbo.
Havia uma
mulher que areava a lua,
Um
plátano a abarrotar de estorninhos,
O teu
medo estreme na ombreira
Da minha
solidão. Confia.
Essa voz
que vem de dentro É a voz do mar.
