Quinta-feira, Novembro 17, 2011

Comunicado do escritor Antônio Cabrita:



O escritor português António Cabrita, autor do romance "A Maldição de Ondina", recém-editado no Brasil pela LETRASELVAGEM, enviou um comunicado aos brasileiros que, através de e-mails enviados de todas partes do país, solidarizaram-se com ele em virtude de, por razões até então inexplicadas, ter sido impedido de sair de Moçambique no último dia 9 de novembro, razão pela qual o lançamento do romance, anunciado para o dia 16 de novembro em São Paulo, teve de ser adiado para data ainda a ser definida, no começo de 2012. Além do lançamento do romance, António Cabrita também viu-se impedido de vir participar do Congresso Brasileiro de Escritores promovido pela União Brasileira de Escritores, de 12 a 15 de novembro, em Ribeirão Preto/SP. A seguir, o Comunicado do escritor:

ANTÓNIO CABRITA: COMUNICADO


Meus caros amigos da União Brasileira de Escritores, queridos cibernautas que me têm escrito, solidários com a minha situação, quero informar-vos que os problemas que me impediram de ir ao Brasil se estão a resolver a contento, sem atritos nem ondas alterosas, e que em fevereiro ou março poderei dar um salto ao Brasil para relançarmos «A Maldição de Ondina» e darmos aquele papo que nos faltou. Peço-vos que estejam serenos, como eu. E como a poesia é a única «liberdade livre» que realmente nos faz viajar, aqui vos deixo, dedicando-vos, o poema que escrevi esta noite.


OITO VARIAÇÕES DE UM MELRO SUFI


1

Essa voz que vem de dentro

É a voz do mar.

Ela pergunta-nos: onde está a morte?

Em que naufrágio se perdeu?

Em que banco de coral se dissimulou?

Dormem os seus olhos na boca do lúcio,

Ou sob o manto das medusas?

Onde está a morte, tão mínima

Que temos de a procurar no miolo das praias?

Reboam as ondas sobre os seixos

E, ouvidos os canários, perguntam-lhes:

Onde está a morte?

Essa voz que vem de dentro,

Que nos exalta e recoloca

No êxtase, como dentro de um vaso,

É a voz do mar.



2

Quando vejo alguém encantado com o abajur

Percebo que cegou à luz,

Que um reposteiro se interpôs

Entre ele e o mar.


Eu felizmente tenho os teus ombros

Que não me deixam esquecer

Tenho a minha boca que os declina

Em colinas de jade.


Basta mordê-las e a luz jorra

Criva-se nos meus olhos,

Espasmódica, láctea: reflui.



3

Como pode haver uma ponte sem duas margens?

Olhou-a dentro, descontaminando

A fractura dos seus olhos?

Os mistérios são verdes, como o electrão,

Como a tua carne no duche.

O que permanece intocado

Cabe dentro das Suas mãos,

Mãos que seguram as tuas.

A saída do ar é Deus

Que te alambaza de vinho.

Sacia-te, antes de recomendar:

O gato comeu o Espírito Santo,

Sorve-lhe tu agora o coração.



4

É muito difícil pôr a cabeça

De lado. A cabeça

Do cravinho

É mais sã. Também à palavra

Às vezes é preciso cosê-la

Ou encapsulá-la no silêncio.



5

Só via tinta preta

Onde havia letras de um viço

Que atapetava o chão de miosótis.

Nesse verão amiúde

Raiou a caligrafia de Deus

Nos olhos da raposa.

Mas estava incréu

Como pão ázimo.

A sua alma ia com a crina

Daquele cavalo

Que refulgiu como um cometa

No incêndio do estábulo.



6

Quando o estilhaço

Abre uma cratera na cabeça

Do soldado que estava ao teu lado,

Ter medo é uma demasia Inútil.


Quando acordas

Deslumbrado pela mão que poisada

No teu peito te desencordoa

O sangue, ter medo

É uma demasia Inútil.

Guarda as moedas

Para as atirares ao mar.



7

Há um naufrago nos teus cabelos,

Arrasta-te para cima.

O que é plausível

É que a cereja na sua boca

Faça de mim um homem diferente.

Há um naufrago na tua aorta,

Arrasta-te para o sol.



8

Nunca o meu coração foi tão verde

E vibra como a prancha da piscina que folgou.

Aflui a mim a paisagem,

Manancial, anelo, no sonho de despertar Contigo.


E sou quase feliz.

Só não sei onde cresce o ruibarbo.

Havia uma mulher que areava a lua,

Um plátano a abarrotar de estorninhos,

O teu medo estreme na ombreira

Da minha solidão. Confia.

Essa voz que vem de dentro É a voz do mar.