Este conto de Amélia Loureiro pode ser inserido dentro de uma tradição de ruptura e de estranhamento como valores de uma visão de mundo que inclui Maura Lopes Cançado e Ingeborg Bachman, Amélia escreve de e para o Século 21 e Maura e Ingeborg também, sim, mas o que está apenas esboçado na obra destas duas, aqui é mais do que uma sensação, é uma espécie de música de sensações remixadas como não-lugares, falo em continuidade do estranhamento como um valor da ruptura, editoras zumbis e editoras vampiras, a publicação de um livro com a prosa de Amélia é uma demanda do nosso tempo e virá. Abaixo um conto de Amélia que li como se ouvisse uma canção do radiohead com letra do leonard cohen.
Marcelo Ariel
CRISTAL GRISE
(“A muralha da China sempre reconstruída. A muralha de Berlim intacta. A muralha de Israel. A muralha do México. A muralha dos Estados Unidos da América. A muralha em mim.”) Mantra onipresente por debaixo da chapinha negra reluzente da mulher quando desce do carro em frente ao hotel em que ficará por um único dia na maior cidade do planeta. Nada de sua silhueta avisa sobre o forro dos sentidos, aquilo que é chamado de o mundo interno. Sussurra antes de entrar: - Caliente analfabeto é o mundo.
Joga a bolsa sobre a cama e os olhos sobre o esplêndido espelho da suíte: (“cansadíssima. Extenuada. Esquecida de mim em um encantamento.”) Liga a TV, abre a torneira da banheira, mergulha o corpo alvo deixando de fora (“a enorme cabeça-bólide trancada para qualquer influência. Das estrelas longínquas, das nuvens, dos bichos, das árvores, do ar farfalhando as folhas.”) Extrema quietude externa: (“uma predileção exagerada pela queda. Cair e permanecer caída. O amor pela prisão, sem nunca perceber que se é o prisioneiro. Sempre um olhar obnubilado protege. Um choro mudo, e endereçado, claro. Até o ponto em que a existência vira bem barata. Somente as flores devem florescer. Nada além do foco feio fora e eu perfeita, e fechada.”)
Dispara um grito de horror e as batidas do seu coração, involuntariamente. (“Quantas realidades cheias de luz e alegria eu não posso sentir e nem falar? Meu coração sabe. Ando em guerra. Armada contra mim: eu versus eu mesma.”) Não se ouve mais a TV. Nem mesmo ao longe como antes. Um silêncio surdo se instalou através da pesada porta do banheiro fechada à força pela corrente de ar vinda da janela da frente, aberta. (“Não há qualquer esperança vinda de fora. Eu contra mim mesma. Separada de mim. Nenhuma espera.”) Um tremor, um espasmo mínimo da luz fluorescente do teto, quase imperceptível aos olhos fechados: (“não reconheço a eternidade em mim, nem espero sentir as grandezas materiais como os mil sóis.”) Respira bem fundo e agora mergulha toda a cabeça: (“vivo dentro da minha estrita geometria cinza, meu corpo-pensamento, e nada cabe aí além de memória.”) Seria lágrima ou água clorada aquilo que escorre pelo rosto? Os dedos molhados não decodificam: (“o hábito de não considerar nunca a minha presença. Plugada a uma segunda natureza. Filha da história, nem homem, nem mulher. Se vociferasse ninguém me atenderia na sala blindada por carpetes mofados.”)
2:00 pm. Volta a ligar o celular enquanto disca para a telefonista do aparelho fixo na mesinha de cabeceira: - algum recado? Obrigada. Pensa batendo a porta atrás de si que tem um intervalo até a reunião na galeria. O frio é estimulante assim como flanar pelas avenidas do comércio internacional. (“Onde eu guardei aquilo que sumiu?”) - Pernas pra que te quero! Calcinhas comestíveis no super saldo da cumbuca.
Toca o cel. - Escuta-me. Você fala muito também. Não ouço você sim, e você não me ouve sim. Vejo-me em você sem nunca admitir. Você concentra em mim o que deseja e nunca ousa. Não é este o pacto firmado sem palavras? Não estou presente e você também não. Não te enxergo verdadeiramente nem de perto. Você não me surpreende. Nada além. Sem desculpas para ambos. Seu porte não me atinge. Você não está no que vejo. O que em você poderia me impactar? Não espere o júbilo de mim, querido. (Querido eu falo no momento de ferir.) Deixe pensar os outros. Não há enredo na canção porque na vida não há enredo. E por acaso serei mais palpável em pessoa? Nem júbilo nem nada. No máximo um sorriso, mesmo escancarado, pintado na boca. Nunca nascido, sempre morto. Saiba amado homem, o mesmo eu espero de você. Seu sorriso maquinal. Obrigada. Muito espesso. Comprido. Bárbaro. Automático. A obra de cada um. O direito privado reclamado. A autoridade conquistada. Eu sei e você sabe: todos nós sabemos. EU SEI PENSAR, EU NÃO SEI AMAR. O amor infinito encontra fechado o meu coração.
Cavalos de pelica para o lazer. Turistas em ondas: - Babo de prazer: mais um. Mais um: eu pago! Vê os pet-shop-family: - Cachorro é amizade: eu compro. Quantas irrealidades cabem em um único momento? -FUCK! DON’T YOU SEE, BITCH? Por um triz não acontece o pior: não viu o carro marinho ultrapassando o branco no momento em que cruzava a avenida, e o sinal já não era mais verde para ela enquanto a voz do outro lado do celular emudecia após estertorar-se. E percebeu que não havia mais tempo.
Teria que correr ou... Não havia senão. Agora é tudo ou nada e precisava clareza para apresentar o seu projeto, o trabalho de vários meses. Poderia começar assim: - Caminho na rota rude. Fala alto e ri de si, do que acabou de ouvir. Corre mais e já está no hall da entrada. - Pensei em trabalhar os seguintes conteúdos-formas: Meditação alienada. Os templos do consumo. A cerveja hóstia e o cinema missa. Pombas enfurecidas na praça. Margarida refrigerada. Anquinhas pisoteadas. Maçã sem amor. Estupidez diplomada. Ânus despetalado. Alma embalsamada. Câncer de sol. Respiração involuntária. Vida sem morte. O berço de perna quebrada. Ausência do verbo. A imitação norteadora. Hidrantes como natureza num campo queimado, e espalhadas, as sereias envoltas em gibão de couro curtido. Deu certo: ano 2011 em três cidades simultaneamente. (“Mesmo que os sinos toquem a virgem não fechará outro tipo de negócio: olé!”)
11:11 pm: De volta para o hotel acompanhada de algumas pessoas do staff da galeria. A embriaguez ruidosa do grupo propicia o ambiente para as formas-pensamento: (“A felicidade é útil como um helicóptero e depende de você desejar. É assim que todos nós aqui vibramos agora. Se você deseja, acelera, luta, consegue: é a felicidade que chega e está indo embora. Você comeu e agora só resta a fome, o buraco que engole tudo e nunca é preenchido. Comi até sentir uma dor. E quando estou triste penso em comer. Na vida que escolhi tenho os meus horários e não tenho tempo. A fome, fome mesmo, nunca chega, a comida vem sempre primeiro. Fome não é fome mesmo, é desejo.”) Agora resta o sono se ele ainda for possível.
(“O que faço é o que sou. Negocio a minha comida, o meu lazer, a minha respeitabilidade. A minha área de atuação é onde todos os meus saberes confluem para me salvaguardar. Toda a minha vida nessa carreira. A minha vida é a minha carreira, compreende? Sem cansaço nem fraqueza. E ainda uma dureza adquirida nos esbarros, super população, esfomeados. Todo o poder de fogo crispado. Fora o resto, sou feliz por minha vida ter um desenho nítido. Feliz ainda por me sentir útil à sociedade, verdadeiramente participante, com todos os meus recursos direcionados e disponibilizados. A sensação gostosa de pertencer a uma corrente: você paga pelo que eu posso te oferecer, e eu administro os meus recursos comprando de você aquilo que ainda não tenho e anseio. Um amplo espectro de investimentos em instrução, um loft, a casinha no campo, as milhas da vida em trânsito, aquele condomínio fechado na praia, sexo seguro, sexo solitário. Fico feliz pela infinitude dessa lista, pelo meu dom de lutar, pelo sentido de segurança que tudo isso junto proporciona. Adoro arte, meus amigos, design, viagens, informação, spa, spinning, equitação, ioga, moda, livros, romance, lingerie! Ah!”) Nada como o frescor da manhã, um acordo bem feito e cenários passando velozes através da janela de um táxi.
(“A outra. Passo por ela que não me vê, não me atende, e eu que também finjo não vê-la, fico parada, só olhando ela se afastar. O que me é insuportável é esta vida sem morte. É disto que padeço. Sou uma horda vinda do desejo de ser única.”) Ela escreve em seu caderno diário fechado no mesmo instante em que pousa o avião no solo de origem exatamente às 11:11:11. No saguão do aeroporto a canção que toca é a mesma em todas as estações, e ela canta junto:
Granizo é meu coração,
Grise a minha língua.
Avise-me se me encontrar.
No momento em que me encontrar,
Grite! Grite!
Amansa-me com suas palavras duras.
Corra até mim e me empurre.
Detone o meu alvo escuro.
Lança-me de encontro a mim.
E me grite! Grite!
Pois de cristal é o meu coração.
Amélia Loureiro
