Domingo, Julho 12, 2009

LIVROS NÃO-TRADUZIDOS:

Neste livro póstumo de Anne Sexton podemos encontrar a matriz de seus poemas mítico-confessionais e talvez a fonte de uma sinergia que a partir de um sentimento trágico do mundo ( Ver Unamuno) converte a interioridade em exterioridade, algo similar ocorre com a poesia de Ana Cristina César, que como Anne Sexton vivia dentro da trincheira do poema-sem-trégua. " A Self portrait in letters" merecia ser lançado no Brasil junto com toda a obra poética de Anne Sexton,uma obra onde as fronteiras entre a poesia e a vida cotidiana desaparecem, álias estas fronteiras jamais existiram , sei que estou dizendo o óbvio, mas Anne Sexton evoca para esse óbvio que precisa ser dito e repetido sempre, o status de uma poderosa mitologia.

marcelo ariel

Sábado, Julho 11, 2009

ENTREVISTA DE MÁRCIO-ANDRÉ PARA O FÓRUM DE LITERATURA BRASILEIRA DA UFRJ:




MÁRCIO-ANDRÉ


“A própria realidade se revela a mais fantástica obra de arte”


Márcio-André é poeta, músico, programador de som, performer, tradutor, ensaísta e editor da revista Confraria (de arte, literatura e pensamento). Tudo isso pode nos levar a rotulá-lo como artista multimídia, porém, bem mais do que isso, Márcio emprega em seu trabalho estético aquilo que reivindica com sua (artística) teoria: a ruptura com a lógica da segregação, para que assim a arte se manifeste plenamente, como uma autêntica reunião de pensamentos e fazeres.
Com a energia dos que amam com o estômago, Márcio-André respondeu e acompanhou detalhadamente a revisão de cada pergunta de sua entrevista, concedida a Marcos Pasche, dada a paixão com que impregna suas discussões, justamente por não conseguir ceder ao protocolo ou ao comentário raso quando se trata de debater os entraves das ideologias ocidentais. Analisando televisão, internet, ciência e, é claro, literatura, ele fala a respeito do seu mais recente livro, Ensaios radioativos, alertando-nos sempre para as obstruções colocadas pelos caminhos abertos pela própria vida.

P:Os Ensaios radioativos não se voltam para a análise de obras literárias específicas,mas para a de ideias. Em especial, o livro questiona as ações segregadoras que se perpetuam pelos séculos. É possível identificar uma causa ou gênese de tal separatismo? E, em termos artísticos, onde a segregação é mais flagrante?

R : A questão mais importante que o livro aborda, ou, se não aborda, pretendo abordar em outro livro, e que está intimamente ligada com essas ações segregadoras das quais você fala, é a ideia em torno da indeterminação entre ficção e realidade. Cada vez mais, percebo quão falsa é a fronteira entre ambas. Os limites impostos entre elas talvez sejam a maior fraude de nossa tradição filosófica, simulacro epistemológico da vontade de discernir o nós dos outros, amparado pelo julgamento clássico do que é falso e do que é verdadeiro. E não se trata de uma questão meramente filosófica, mas concreta, que tem o poder de nos colocar frente a questionamentos profundos quanto ao nosso sistema ético. O desastre de Chernobyl, a desertificação do mar de Aral e o muro de Berlim servem como exemplos. Esses eventos teriam sido inacreditáveis se não tivessem ocorrido. A única diferença aceitável entre ficção e realidade é o fato de aquilo ter acontecido ou não, e sabemos o quanto qualquer história, qualquer passado, é prospectivo ao futuro que se queira chegar e, portanto, segue determinados parâmetros absolutamente ficcionais (a ciência na qual qualquer história se baseia é uma ficção dela mesma). Todo passado é uma invenção e todo futuro uma possibilidade, sendo a única realidade o presente, este tão moldável quanto o sonho. É a ficção (do latim fingere, moldar) que conforma a coisa (res, real). Portanto, toda ficção é real. Diante disso, toda e qualquer segregação não deveria existir, e falar de como essas questões afetam a arte não faria mais sentido, porque não estamos falando de uma ficção e de uma realidade ecomo elas interagem, mas da ação direta na coisa, da criação de universos dentro de universos, do mundo articulado como um sonho do humano em um estágio tão profundo de dinâmicas realizadoras que a própria realidade se revela a mais fantástica obra de arte. Obviamente isso não é interessante para qualquer sistema vigente, e as segregações só são possíveis dentro destes sistemas – questões completamente externas que surgem a partir dos produtores e consumidores de arte. E aí está o problema: o fatode já haver produtores e consumidores. Essa é a consolidação máxima de uma tal separação, pois subjugamos a realidade nos colocando como consumidores, e a ficção,como produtores–de forma que, ao nos impormos em um desses aspectosisoladamente, criamos o outro enquanto coisa estanque. Somos nós que, ao produzir econsumir, encerramos um sistema dicotômico, realizando o mundo de maneira fraudulenta. Daí para as institucionalizações e suas infinitas subdivisões é um passo. E são as institucionalizações sobre a arte justamente a matéria dessa segregação. As especulações mercadológicas em torno das obras, as articulações políticas entre os artistas, o sistema de autocanonização, que nada têm a ver com o real debate em torno da arte, tomam o lugar do debate real. E essas especulações são os maiores entraves para evitar que cheguemos a esse estágio profundo onde realidade e ficção deixam de ter fronteiras.


P: Na parte inicial do livro, você sugere que façamos o exercício (com base na canção “Um índio”, de Caetano Veloso) de “procurar no oculto ‘aquilo que terá sido o óbvio’” e, em outra parte, você diz que “paradoxo é uma palavra inventada para suprir nossa incapacidade de entender o absurdo do mundo”. De que maneira você explicaria certa tendência comum de ver no absurdo algo estranho, impróprio à vida?

R: A cada instante nos deparamos com situações que fogem ao ordinário e somos
incapazes de percebê-las ou, quando as percebemos, tendemos a compreendê-las da forma mais banal possível. O cotidiano nos dá indícios, em cada pequena coisa, de que nada faz sentido e que o tempo não tem direção, mas, por já termos sido adestrados à rotina da rotina (e a rotina nada mais é que domesticação da consciência do tempo),insistimos sempre em cultivar e cultivarmo-nos no vetor unidirecional da causalidade (o que é muito cômodo, pois mantém as coisas funcionando – independente do quão incômodo é seu funcionamento). E isso, em certo sentido, é o responsável pelo maior impasse de nossa era: a crença inabalável de que em algum momento tudo fará um sentido tão pleno que já não teremos dúvidas, sendo que nem ao menos sabemos quais são essas dúvidas. Obrigamo-nos a engolir isso – essa esperança no vazio – às custas da sistematização do pensamento e da institucionalização do corpo. Ao separar um do outro, atribuindo especificidades a cada um deles – especificidades tendenciosas – e, por consequência, criando categorias como este e aquele, adquirimos o impulso físico de sempre nos delimitarmos em certa posição fixa em relação a algum episódio no tempo e no espaço. E o que ocorre é que, quando optamos por uma posição, abolimos todas as outras, recusando ver o espectro em sua totalidade. Limitamo-nos a ser bidimensionais,ainda que nosso corpo diga o contrário. Obviamente, o que vislumbro em contrapartida não infere a eliminação das diferenças, mas unicamente a radicalização do equilíbrio entre o que é um e outro, de tal forma que eles possam coabitar-se sem se anular, uma
vez que nessa “unidade” as diferenças não são excludentes e as identidades não são niveladoras. As diversas realidades são concomitantes, realidades opostas e
contraditórias coabitam, consubstanciam e determinam o real, não por eliminação ou assimilação, mas em suas diferenças radicais, tal como a complementaridade, para não enlouquecer diante do comportamento das partículas, aceita que informações excludentes entre si sejam concomitantemente verdadeiras, sendo o confronto dessas a única forma possível de descrever o “objeto” observado (vale ressaltar, entretanto, que, no âmbito da física, a dualidade onda/partícula determina que a luz se defina – onda ou partícula – a partir do instrumento que se escolhe para observá-la, unicamente por uma questão narrativa contida na própria natureza de nossos clássicos “instrumentos” e “instruções” de observação. Dificilmente a linguagem científica dá conta da concomitância dessas realidades impossíveis e absolutas em um só ente. Geralmente é a arte que nos possibilita tal experiência). Ora, o que você chama de “absurdo” nada mais é que uma invenção da nossa tradição para tentar enquadrar dentro de seu próprio sistema toda e qualquer manifestação dessa concomitância de realidades sobrepostas. E de alguma forma voltaríamos àquela questão anterior sobre a separação entre ficção e realidade, e toda a sua cosmogênese ao rés do conceito de verdade, uma vez que a vida é o mais absurdo dos roteiros já escritos.


P:No texto “Tradução enquanto exercício quântico”, você diz ser imprescindível que o crítico seja também um artista. Em que sentido pensa tal fusão? Além disso, você vê algum crítico brasileiro que a tenha empreendido?

R:Não existe, nem nunca existiu uma obra de arte que não seja por si só um exercício da crítica. Toda obra é sempre um pôr em crise as outras obras, a partir do momento em que ela põe em crise a própria realidade – ainda que algumas, por falta de cuidado, reafirmem o senso comum (mantendo o real dentro do controle e fora da crise). Sempre que produzimos uma obra, sobretudo quando produzimos a partir de outra obra, nos colocando numa situação de leitor e criador ao mesmo tempo (por exemplo, ao adaptar um livro para o cinema, ao musicar um poema, ao encenar uma peça ou ao traduzir um poema de outra língua – e essas são propostas do Pound), estamos fazendo o mais profundo e radical exercício da crítica. Pois só penso ser possível conceber uma crítica a partir do sentido de perda no outro – o profundo envolvimento criativo com a obra posta em crise –, num processo muito próximo ao que o artista enfrenta ao criar do “nada”. Nesse sentido, os críticos estão aí (para citar os mais óbvios): as traduções do Augusto e do Haroldo de Campos, as adaptações de Hector Babenco do Beijo da Mulher Aranha e do Brincando nos campos do Senhor, as encenações de Os sertões e Esperando Godot do Zé Celso, as composições do Uakti sobre peças do repertório clássico. Mas, quanto à outra crítica – sobre a qual eu imagino que você queira que eu fale –, a crítica formal,
acadêmica, nessa eu tenho visto realmente pouco poder de pôr o mundo em crise, pelo seu caráter restritivo no que concerne à obra, tendendo a fechar mais do que a abrir, o que – ressalto – nem sempre é uma regra, e o que não quer dizer que esse tipo de crítica não possa ser reinventada a partir de um outro éthos em relação ao “objeto” literário, de tal forma que a literatura deixe de ser objeto para se tornar inteiro na própria crítica – correndo o risco, a crítica, de se verter em obra. Uma pergunta inevitável: como avalia a literatura brasileira de hoje?
Olha, temos tido uma grande pluralidade de timbres na poesia atual, com uma qualidade invejável em relação a alguns anos atrás. Mas, ao mesmo tempo, percebo que falta, não uma unidade, mas certo projeto coletivo. Hoje os grupos estão tão preocupados em se combater ou se firmar como hegemonia que o que realmente interessa na poesia fica em segundo plano, tanto é que os grupos não se organizam mais sequer esteticamente, mas apenas politicamente, em torno de editoras e instituições. Esmeram-se na técnica da autocanonização. A preocupação é ser a próxima bola da vez. Então acaba sendo muitas vezes uma poesia vazia, pouco interessada em reinventar o seu locus temporalis, apesar do inegável trabalho de carpintaria, da inventividade e da criação de novos meios por parte de muitos jovens poetas. Isso é imprescindível, claro – na verdade, é o básico –, mas já passou a época de achar que somente isso basta – é preciso mais. E não estou falando de engajamento político, nem de um papel especial do poeta na sociedade, nem do escritor como grande profeta ou qualquer besteira desse tipo, mas de um engajamento real na própria poesia. Não basta o esmeramento da escrita – o poema não acaba na fruição estética –, é preciso sair da institucionalização. Uma poesia que dialogue somente com o autor ou com seu grupo (cada vez mais guetizada) não vale a tinta que a imprime.



P:Um dado interessante de Ensaios radioativos é refletir sobre fenômenos algo insólitos em estudos intelectuais, como o Google e o Pânico na TV. O que o levou a pensá-los? E quanto do nosso tempo pode ser lido em tais fenômenos?

R:Olha, como todo mundo, sou um usuário frenético do Google e durante muito tempo – na época em que valia a pena – assistia religiosamente ao Pânico na TV. Esse foi um dos raros programas que me motivou, por um tempo, a ligar a televisão. E não perdi nada com isso. Na verdade, acho que emburreci um pouco, o que é sempre bom. Mas o fato é que essas coisas da cultura do lixo, do populesco, quando bem feitas, me acrescentam tanto ou mais que muitos livros que me obrigaram a ler para tirar o meu atestado de “intelectual”. Só que, veja bem, hoje há uma moda pelo marginal, pelo junkie, pelo sujo. É de bom tom falar das coisas banais, de livros pops e das celebridades, mas não é o caso aqui. Também nunca me interessou fazer um elogio da cultura de massa – ainda que não veja um mal intrínseco nisso. Eu enxergava de fato, nessas coisas que escolhi, um diálogo pela sua qualidade. O Pânico na TV (e falo, na verdade, de alguns aspectos muito precisos do programa, pois em muitos outros ele era totalmente dispensável) foi para mim a prova de que se podia fazer coisas ousadas na televisão, colocando o próprio sistema televisivo em crise. E eles não foram únicos, apesar de terem sido (quase) pioneiros no Brasil. Eles mesmos se inspiravam num outro comediante americano já (supostamente) falecido, Andy Kaufman: um mitômano que criava tantas realidades e piadas pessoais que nem mesmo os produtores sabiam o que era verdadeiro ou falso. Sem falar de séries como Twin Peaks, Seinfeld ou as vinhetas do Bruno Aleixo, em Portugal. Estes programas se esmeraram na pura intervenção virtual para além da TV, como Banksy faz a mais brilhante intervenção urbana para além do grafite. Mas também não foi por gostar ou não que escrevi a respeito dessas coisas. Escrevi porque entrevi ali, no Google e no Pânico na TV, o material necessário aos devaneios do real, o que se estava concretizando de mais irreal em nossa sociedade – como se surgisse uma nova possibilidade borgianamente labiríntica em ambos. Estava ali, explícito, com alguma inteligência (mais do que a nefasta ideologia da cultura do livro nos obriga a acreditar), tudo o que precisávamos para nos perder sem retorno nas vias da indeterminação entre o falso e o autêntico – ficção e realidade. E isso da maneira mais irônica possível: deixando margem para a mentira – a forma mais pura de verdade. Por causa do capítulo “Proposta para se pensar as nuvens”, no qual se fala do amor pelas coisas ordinárias, você foi tachado de provinciano ao enaltecer as casas suburbanas, destacando-lhes a arquitetura espontânea, sem a uniformidade habitual dos prédios da Zona Sul. Como avalia tal crítica? A cidade do Rio de Janeiro chegou a um limite no qual parece incapaz de produzir um pensamento fresco ou renovador. Excetuando-se alguns intelectuais indiscutíveis de uma geração anterior (Joel Rufino, Nei Lopes, Milton Santos, Costa Lima, Silviano, Emanuel Carneiro Leão, Eduardo Portella, para citar alguns), me parece que a intelligentsia carioca, sobretudo a geração mais jovem, tem se valido da retórica do saber unicamente como adorno para a manutenção de seu lugar na aristocracia intelectual. Num misto de erudição de livraria de Zona Sul e cultura televisiva dominical, eles vão ocupando os canais por meio dos jogos de influência. E sem um engajamento e uma reflexão profunda nas e das coisas, resta somente para eles a reafirmação do senso comum – pior, do seu próprio senso comum. Eles são completamente incompetentes para pensar a cidade, uma vez que o seu papel de intelectual é um embuste atribuído hereditariamente de geração em geração, através dos vícios e segregações que tornaram a cidade o que ela é. Não deixa de ser simbólico o fato de ser filho de um grande figurão a pessoa responsável pela crítica que você menciona. Há hoje uma geração de “filhos de” que, atrelada à geração dos “amigos de”, “primos de”, “cunhados de” e “viúvas de”, promove uma verdadeira suruba de troca de influências com o único propósito de não largar o osso, num país que sequer fez uma reforma agrária ou social (é uma lógica maquiavélica – fundamento de uma segregação invisível, onde o próprio segregador se recusa ou finge não percebê-la). Sobre a falta de bom senso e do que dizer: ora, não saber o que dizer resulta e já é resultado de um não saber ler. Obviamente é natural que quem me fez tal acusação tenha vestido a carapuça, irritando-se com um texto que questiona a imagem tradicional da “cidade maravilhosa”, o legado que seus pais e compadrinhos lhe deixaram como herança. E qualquer um que proponha uma outra cidade, uma cidade sonhada de dentro para fora, uma cidade que se queira outra coisa que não a pseudo-Paris de botequins-butiques do Leblon, será
tachado de provinciano. Obviamente, há outra questão também: o fato desse texto vir de um cara sem “pedigree” que, não fazendo parte de seu círculo de relações, sequer socioeconomicamente, não frequentando suas festinhas, não compactuando com sua cosmovisão deslocada da realidade que lhe bate à porta, ouse refletir bem além do que ele possa compreender. O que se converte numa grande demarcação de território, uma vez que qualquer postura política por parte dessa falsa classe de intelectuais não defende absolutamente nada de que não possa tirar proveito. Entendo esse ataque como uma forma de disfarçar a própria incapacidade de se renovar. E note que estamos falando de alguém que, graças a seu círculo de influência, adquiriu status de “intelectual” em pouquíssimo tempo, com textos semanais que debatem a etimologia dos livros da Danuza Leão ou fazem profundos questionamentos em torno do direito à privacidade do craque Ronaldo. Numa entrevista inserida no livro, você enfatiza a ideia de que o crescimento do número de leitores pode não significar algo positivo como se tenta fazer crer. A mais, toca-se na questão da qualidade do leitor.


P:Por que e para quem os Ensaios radioativos foram escritos?

R: Sinceramente: para os caras que vão me tachar de provinciano. Os rapazes e moças cuidadosos, esses que conseguem abrir um livro, qualquer que seja, e discernir a fundo o que está escrito ali, não precisam dos Ensaios. Ele só descreve o que essas pessoas já sabem. Nesse sentido, os Ensaios é que precisam deles. São eles que potencializarão a escrita do livro com a sua própria força de contaminação. Pois os livros não são a salvação de nada – sobretudo os Ensaios radioativos. Os livros enganam apenas àqueles que lhes dão valor suficiente para, por pura ingenuidade, acreditar na sua dessacralização – como se em algum momento ele tivesse sido algo sagrado. A cultura do livro (pelo menos da forma que ela chegou até nós) é nefasta. As políticas de leiturano mundo são alavancadas por editoras que querem fazer dinheiro como se vendessem cigarros (sendo que cigarros são coisas mais honestas). Para elas, pouco importa esse papo de “poder transformador” do livro sobre o leitor, mas a quantidade de livros que ele deve consumir. Num país a meio caminho de lugar nenhum, como o Brasil, nem a isso se presta. Aqui, a cultura do livro serve à segregação social, racial e cultural. Quantas livrarias existem na Zona Norte do Rio? Quantos favelados podem entrar numa livraria no Leblon? Então é difícil enxergar no livro esse tal valor dignificador apregoado há séculos por nossa tradição iluminista. Acredito, verdadeiramente, que um livro hoje só tem algum sentido se for para destruir a própria cultura do livro. Pode parecer uma contradição, mas o melhor ataque, todos sabem, é aquele que utiliza as próprias forças do alvo, o que ele tem de mais inflamável. E o mais inflamável, nesse caso, é tornar o livro um antilivro. Dizer o contrário do que se espera que um livro diga. Destruir o livro como fetiche, com uma violência tal que se faça perceber que o próprio “conhecimento” é uma farsa. Quando evidenciamos essa farsa, a coisa acaba soando mais como brincadeira. E a brincadeira é justamente o espaço em que os “brinquedos” podem ser destruídos em prol da própria brincadeira. É somente aí, na frequência dolúdico, que o conhecimento pode começar a tornar-se libertário.


P:Você se diz o primeiro poeta radioativo do Brasil. A radiação contamina também o ensaísta? E como isso se manifesta?

R: Claro que sim, até porque dentro do princípio da contaminação não há separação entre ser poeta, ensaísta, músico, performer ou ser humano. O que escrevo nos meus ensaios já está em minha poesia e em minha vida. Eu sou o que escrevo. A exposição à radioatividade lá em Chernobyl apenas me deu a consciência disso. Ser radioativo me dá o poder de potencializar a contaminação nas coisas. Quando se tem contato com o césio se começa a ter ideias estranhas, pois o césio, antes de criar mutações nas células, cria mutações no pensamento e no sonho. Eu consigo, por exemplo, escutar o pensamento dos outros de mim (que já são também outros de outros) – entes de outraspossibilidades existenciais e de outros tempos – como se eles estivessem a meu lado aqui e agora ao mesmo tempo, sonhando-me e dando-me existência, como o reflexo no espelho que coordena minhas ações. E com isso consigo prever algum meio de driblar certas estruturas e escrever sobre elas, e não a partir delas.
P:A proposta de “contaminação” é bastante ampla, indo além de um mero conceito crítico e da ideia de afinidade. Mas é possível dizer que algumas obras estão mais contaminadas por umas do que por outras? Se sim, quem ou o que mais contamina os Ensaios radioativos?
R: A contaminação não é um estado de espírito. Não é uma força, nem uma energia, nem uma troca. Não pressupõe a interrelação entre obras, homem ou mundo. É um algo anterior a isso tudo. É a condição fundamental de ser-com-e-nas-coisas. Se não fosse a contaminação (que é apenas um nome que dei a esse princípio), não haveria sequer encaixe entre uma coisa e outra. Não poderíamos, por exemplo, empilhar dois tijolos, segurar uma pedra na mão ou entrar em uma casa, pela pura e simples falta de sintaxe do real. Portanto, a partir desse sentido de claridade e encaixe entre as coisas, é possível inferir que tudo se pertence e se conecta mutuamente, sem hierarquias, sem vetores temporais ou dinâmicos de criação. Tudo já está pronto (assim como sua plena possibilidade de conexão nas outras coisas) antes mesmo de ser criado e surge a todo instante. Nós é que escolhemos aceitar ou não seu surgimento. Portanto, nos termos da arte, a contaminação não se refere propriamente a uma relação de uma obra com a outra, mas as possibilidades em aberto da própria obra. Toda obra se origina a partir dela mesma – da concretude do humano no sonho do real. Então, para responder a sua pergunta, coloco outra pergunta, um tanto metafórica: a água é mais hidrogênio ou oxigênio? Você pode até responder a isso se baseando na quantidade de átomos de cada um dos elementos presentes nela, mas o fato é que, se tirarmos qualquer um de seus elementos, mesmo o átomo repetido de hidrogênio, teremos outra molécula que não a de água, ou sequer teremos uma molécula. Mas o mais interessante é que nem por isso essa nova “entidade” perde sua potência de se tornar novamente água. De forma que posso dizer que os Ensaios radioativos foram contaminados por todas as obras que não li, além de algumas já lidas – enfim, pelas obras que ela pode gerar, ou não.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

DOIS POEMAS DE MAURÍCIO SALLES VASCONCELOS:



1.


TATUADOR



O Tatuador não vai viver a realidade de pai enquanto o bebê estiver
Sendo gestado – A casa logo se desarruma quando vista à distância
Da sala já exibe a mãe-guia das águas uma ilustração matriz
Reproduzida nas partes dos corpos onde ele trabalha em sua tenda
À altura da Avenida com Travessa Dr. W, sua mulher se emaranhou
Com outro depois de ter se engravidado dele, o Tatuador tem tudo
Em suspenso, agora transpõe para as ruas o resto da mudança mesmo
O inanimado dos objetos antes concebidos em comum com a criança
Por vir, coisas pequenas que crescem com o deslocamento recente
De sua história-de-vida maior que o próximo ato – Início
Pela piscina ultracolorida de plástico pensada para a família
Agora ele reúne tudo em um trapo uma tira elástica conjunta
Ao material de tatuagem, está nas ruas, deixa-se flagrar por qualquer Um,
Não tem mais volta.


2.


BUDA (OUTRO)




(A)


Canta por Buda
Nos intervalos de uma moradia
Para outra, em aluguel, tal qual
Partilha do Dia na Rua:
Canta por B (com o rosto sub-
Merso, mero receptor do espetáculo
In absentia, traduzido em espalhafato
Por cores berrantes e desmedida
Voz dócil, diminuta)



(B)


O homem em folia, faquir
Sem fiança, refém da hora aberta
A passar sob irrefreáveis sinais,
No meio da tarde, entre inumerados
Transeuntes, em tarefa,
Magnetiza e faz mímica
Do mantra ao um – Jamais
Vir a se conhecer


Do livro Ambulante ( Inédito)

Sábado, Julho 04, 2009

RODRIGO DE SOUZA LEÃO ( 1965-2009) :




Sai de cena o grande Rodrigo de Souza Leão, autor do ótimo TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS (7Letras, 2008)...Acima reproduzo o plaquete que ele escreveu com meu brother Paulo de Toledo...

m.a.

Terça-feira, Junho 30, 2009

EM "LÓKI" DE PAULO HENRIQUE FONTENELLE:

a exposição da ética-estética de um artista que possui uma assustadora coerência interior, Arnaldo pode até ser comparado com Syd Barrett, mas seu trunfo sobre o cantor e compositor inglês, fundador do Pink Floyd é que, a doce melancolia e extraordinária beleza de suas canções não está ligada apenas a sua capacidade de transformar a dor em arte, ela também deriva de uma busca incessante pela alegria infantil, no sentido mais transcendente que essa palavra pode ter, no sentido que ela pode ter se aplicada,por exemplo, aos quadros de Paul Klee e Miró. Em Syd Barrett a dor se volta para si mesma, ele é um cantor-compositor de blues psicodélico e está para Arnaldo como Lenny Bruce para o Monthy Phyton. O Arnaldo que aparece no filme é um clown que parece ter uma melancólica sabedoria onírica. O documentário de Paulo Henrique capta isso de um modo elegante e consegue transmitir muito dessa doce e sábia melancolia que se traduz em leveza no filme e em beleza nas canções.

m.a.

NESTA QUINTA NA CASA DAS ROSAS:


19hS:Apresentação dos autores colaboradores do Dulcinéia (leitura dramática). Todos os autores e amigos que colaboram com o Dulcinéia estão convidados a se apresentar.

20h30:Lançamento de O Céu no Fundo do Mar, de Marcelo Ariel e Samba, do grupo Kolombolo. O grupo Kolombolo fará uma breve apresentação, tocando sambas compostos pela ala dos compositores.
A Casa das Rosas fica na Avenida Paulista, 37 . Ao lado da Estação Brigadeiro.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

ENTREVISTA COM O PINTOR E DESENHISTA JOÃO CASTILHO NETO:


O trabalho do pintor e desenhista João Castilho Neto de Mogi das Cruzes, dialoga com a linguagem dos quadrinhos e com o simbolismo. Castilho é o autor das duas belas capas dos livros: O homem deserto sob o Sol de Edivaldo de Jesus Teixeira e Invenção de Onira de Sant'Ana Pereira editados pela Letraselvagem.


Marcelo Ariel - Fale um pouco sobre sua vida, como você começou a pintar e o que a pintura significa para você?

João Castilho Neto – Nasci em 11 de julho de 1957 em uma fazenda no norte do Paraná (distrito de Joaquim Távora) da qual meu pai era administrador. Na fazenda havia uma escola (chamavam de “escola isolada”). A professora se hospedava em nossa casa. Aos cinco anos ganhei dela uma cartilha “Caminho suave”, caderno e lápis. Costumava copiar as letras e os desenhos da cartilha.

Aos 7 anos, ao entrar na escola, já sabia ler e escrever. Menino do interior cresci sem conhecer rádio, cinema ou a também infante televisão. Interessei-me pelos livro, lembro-me que meu pai tinha uma coleção de livros de aventuras (coleção terramarear) com “Tarzan”, “os 3 mosqueteiros” , “Viagem ao centro da terra” e outros quetais. A primeira história em quadrinhos que li foi um faroeste: “Bob Benson e o rancho Bê-barra-Bê”.

Aos 10 anos vim para São Paulo, onde residi com a família em Poá e depois nos estabelecemos em Mogi das Cruzes. No ginásio onde estudei, comecei a me interessar por pintura; tinha um amigo que trabalhava na banca de jornais de seu pai onde tomávamos emprestados os fascículos de “Gênios da pintura”. Foram meus primeiros mestres. Gostava particularmente de Di Cavalcanti e suas mulatas. Conheci uma pintora impressionista, Olga Nóbrega, que me iniciou no mundo das telas e tintas, primeiro a óleo e depois as acrílicas. A pintura é para mim a orquestração das imagens, sendo o desenho a composição.

MA - Qual a importância da linguagem dos quadrinhos no seu trabalho?

JCN - A linguagem visual e a escrita correra paralelas em minha formação. Fantasma, Flash Gordon, Mandrake, Capitão Marvel, Super-homem, Batman, alimentavam os meus sonhos. Mas era apaixonado mesmo era pela Mary Marvel, Super-moça, Dale Evans, Diana Palmer e a princesa Narda. Talvez venha daí a fixação pela figura feminina e pela Pin Up. No ginásio, comecei a criar personagens e a fazer ilustrações para pó jornalzinho, impresso em mimeógrafo.

MA - Como você vê a arte no Brasil e no mundo hoje?

JCN - A arte de vanguarda, que era provocativa e instigante, se institucionalizou e hoje vive nas galerias, pastoreada por curadores que impõem seu gosto e interesses ao público e mercado. Talvez ela esteja viva e atuante em outras mídias alternativas como grafitte, stiker, atuando nos espaços urbanos.

MA - que é a vida para você?


JCN - A arte de procurar dar sentido ao Caos.

MA - E sobre a "Alma", o que diz?

JNC - É o motor que põe a máquina da vida em movimento.

Quais são seus trabalhos mais significativos e por quê?

JCN - Sempre é o que estou fazendo no momento.
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João Castilho Neto participou com destaque da Coletiva Artes e Artistas Mogianos, em 1973; do Ateliê na Central de Artesanato do Amazonas-Manaus, de 1993 a 1995; da Mostra Individual ( UMC-Mogi das Cruzes),em 1999; da Mostra Individual " Alma Brasileira" - Casarão do Carmo, em 2001; da Bienal do Alto Tietê, em Suzano-SP; da "XVI Mostra Afro-brasileira Palmares, em Londrina, Paraná, em 2001; da I Mostra de Arte Contemporânea-Instalações-Mogi Shoping, em 2004, da " Viajando pelo mundo através do olhar de nossos artistas-Feira das Nações-Mogi das Cruzes-SP, em 2005, entre outras e possui obras expostas em Freiburg-Alemanha.

WORK IN PROGRESS :



em breve nas melhores praças invisíveis, este anti-espetáculo ( VER: O Sol como uma mercadoria impossível lá no Riachinho do Debord), escrito e dirigido por João Farnese, com uma provável arquitetura interior inspirada nos improvisos para piano de Ijikata e no butô de Thelonious Monk ,era para ser uma versão do T.A.Z. do Hakim Bey, mas só o Deus sabe o que será, o Deus e quem for ver... os números no semi-cartaz são um código sem relação com o tempo.

m.a.

NESTA QUINTA NA CASA DAS ROSAS:

Lançamento dos livros: Corpo Possível de Felipe Stefani,O gato peludo e o rato de sobretudo de Wilson Bueno e Minialturas de Renan de Andade Holanda a partir das 20:30h.
Antes as 19:30H, o debate : Artes e práticas culturais com Cristina Freire ( Co-curadora da 27 Bienal) e Monica Nador ( JAMAC).

Terça-feira, Junho 16, 2009

SIMONAL É O "MISHIMA" DA MPB?

Vi duas vezes o documentário de Cláudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer sobre a vida-obra de Wilson Simonal, e a impossibilidade de separar vida e obra é uma das coisas que o filme parece provar,Simonal é o Mishima da Música Popular brasileira, como o extraordinário escritor japonês ele era um talento sem limites, como Mishima ele pagou caro por ter vivido em nome de uma ética própria, que muitos podem considerar como ingênua ,mas que foi em sua época e momento essencialmente pragmática, como Mishima ele renovou uma tradição cultural, no caso a da canção brasileira, é inegável que ele e Johnny Alf são os grandes negros criadores e renovadores da canção brasileira e Mishima também renovou a tradição dos romances japoneses ao incorporar elementos da narrativa ocidental ( influências de Oscar Wilde , Proust, de Dostoiévski e Maupassant foram misturadas com a tradição do romance trágico japonês e o resultado é genial, basta lermos a tetralogia Mar da fertilidade ).
A diferença fundamental entre Mishima e Simonal é no tipo de suicídio,o suicídio voluntário de Mishima foi parte de seu projeto ético-estético e pode ser considerado como um resultado da ficionalização de sua própria vida, o de Simonal foi um suicídio simbólico e involuntário, podemos afirmar que ele foi de algum modo suicidado pelo patrulhamento dos (também) ingênuos militantes de esquerda da época, mas ele não era vítima, ele iniciou um suicídio simbólico que foi completado pelo patrulhamento e pelo ostracismo patrocinado pela patrulha ideológica, a mesma patrulha que hoje bate palmas para o fantasma dele e sai chorando do cinema.
O que importa para mim e depois de rever o filme isso ficou claro, é o assombroso parentesco e a assustadora afinidade que sinto existir entre a alegria ( e a malandragem também simbólica) de Simonal e a melancólica objetividade do projeto de Yukio Mishima,ambos em um determinado momento de suas obras-vida alcançaram o que podemos chamar de superioridade da estética sobre a ética. Mishima em seus romances que no fundo eram anúncios da dissolução como meta e do trágico fracasso da impermanência da beleza no mundo e Simonal em seus shows nos anos 60. àlias, Simonal quando saía do palco e ia tomar um café, enquanto uma multidão de otários ficava cantando sozinha no palco, não estava ( por alguns minutos) pairando acima desse fracasso? E Mishima ao encenar e filmar o próprio suicídio em seu fime Patriotismo, não estava tentando de uma maneira sutil e distanciada rir de sua própria tragédia?

marcelo ariel direto do deserto do marketing do enigma.