Sexta-feira, Novembro 20, 2009

CHUVA INTENSA E NÉVOA BRANCA :



Foto: Gerald Thomas e Samuel Beckett

a arte e seu entorno estão condenados ao eterno retorno da intensa névoa branca. A  ditadura do Devir-Déja Vu venceu mais uma rodada, os artistas pensam como se fossem empresários da fome e os empresaŕios da fome estão no poder, o evento está definitivamene no lugar do acontecimento e pipocam em toda parte oficinas e fóruns no lugar da dos centros de autenticidade e da reflexão-contestação como vetores de uma ética, diante de um quadro tão anódino e ridículo a arte se converte em acessório-bibelô da burocracia dos altos negócios do crime sutil. A imprensa está no auge da sua transformação em orgão de assessoria privada dos setores públicos e empresariais do Poder e do poder. Gláuber e Oiticica são os profetas suiciados pelo excesso de desgosto, Agrippino de Paula e Farnese de Andrade são os profetas exilados no Ventre do Real. Gerald Thomas migrando para o cinema depois de Moisés e Aarão ( Schoenberg) não deixa de ser uma boa notícia. Seguindo na minha Cruzada-Cruz & Souza  vejo em tudo o maravilhoso que não acontece ou acontece apenas parcialmente, aqui e ali, os indícios de um Paradiso flutuante dentro do onirismo geral. 


marcelo ariel


AZUL ESCURO E PRATEADO:



Hoje estava passeando entre o niilismo e a nostalgia do Paradiso com minha amiga Rosaine,quando fomos ( eu mais do que ela) surpreendidos por um grupo regional tocando Pixinguinha( na foto acima com Louis Armstrong) no quintal de uma casa, pensei que a beleza no sentido dostoiévskiano da palavra estava em extinção( pensei?) , ficamos ali ,eu e a Rosaine paralisados pela beleza do improvável, pela delicadeza selvagem do raro e isso não tem nenhuma relação com o dia da consciência negra, álias, o povo brasileiro tende mais para o Etrusco do que para o Romano, merecíamos um carnaval que durasse dois anos como as festas etruscas do D'Annunzio. Reparação, inclusão social e outras lorotas seria um bom título para uma crônica do Sérgio Porto ( não sei porque me lembrei do D'Annunzio e do Stanislaw Ponte Preta). Enquanto não vêm a chuva infinita tão sonhada pelas multidões de apocalipticos, ficamos  aplaudindo do meio da rua aquilo que agora sabemos era e é o momento em que o Brasil começa a existir, o Brasil começa a existir quando a memória do Pixinguinha atravessa uma rua qualquer de uma província latino-africana-portuguesa-índígena  qualquer, como Santos, Guarujá, Cubatão, Peruíbe e etç... e quando a memória de Zumbi dos Palmares atravessa uma rua ou avenida de uma destas mesmas províncias, o Brasil simplesmente deixa de existir e é engolido pelo Devir

Marcelo Ariel 



Marcelo Ariel

Terça-feira, Novembro 17, 2009

SOBRE "INSTABILIDADE PERPÉTUA" DE JULIANO GARCIA PESSANHA:


Em 'Instabilidade perpétua' (Ateliê Editorial) estamos na iminência de um 'virar-se' não para a porta que nos leva para a floresta domada da filosofia, mas para a fresta que anuncia o silencioso bosque do poema. Atravessando-a encontaremos o convite para a dignidade de um silêncio que ilumina como a vela do filme 'Nostalgia' de Andrei Tarkovski, e esse silenciamento nos coloca à anos-luz do império dos dicionários de senhas para a eficiência da frase pronta, à anos-luz dos arquitetos que planejaram os castelos de gelo do esquadrinhamento do mundo, aqui também o anúncio do derretimento do tijolo de gelo das respostas, o estilhaçamento do espelho de gelo dos esquemas filológicos que simulam o poema, do mesmo modo precário e poderosamente ilusório que a esfera dos negócios converte a vida em ficção burocrática do consumo. Aqui o caminhante ontológico se vira, não para a porta pintada na parede, mas para a luz do sol que entra pelo enorme buraco no teto.

Juliano Garcia Pessanha é um caso único e raro na literatura brasileira, um poeta que escreve no limiar das fronteiras entre a poesia e a filosofia, no centro de um estranhamento entre estas duas pontas do humano, a ponta que anuncia sua chegada no mundo (A poesia) e a ponta que ouve na canção das coisas a pergunta essencial do mundo.
Instabilidade perpétua, certeza do agora, Sabedoria do nunca e Ignorância do sempre formam um desenho digno de Paul Klee na camada oceânica do viver (e não no Véu imaginado por Berkeley). O que Juliano Pessanha escreve tem cheiro de coisa viva e não é uma cartografia das angústias atuais, é o poema em estado de pergunta.

Marcelo Ariel

Domingo, Novembro 15, 2009

O TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS POR NILZA AMARAL:


 
 
Dos quadrinhos para a cidade fantasma

Nilza Amaral*
 
A ternura e a melancolia dos códigos negros que caminham pelas páginas brancas, outrora virgens, do "Tratado dos Anjos Afogados", de Marcelo Ariel
Assim como falham as palavras quando querem exprimir
qualquer pensamento, assim falham os pensamentos
quando querem exprimir qualquer realidade
(A.C.)
 
A afirmação acima de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, talvez tenha a ver com o poeta Ariel, autor do recém-lançado Tratado dos Anjos Afogados (Ed. LetraSelvagem, 216 pág, 2008).
 
Seus versos são gritos de guerra de um guerreiro, cujas únicas armas são as palavras, que podem ser flechas certeiras a alcançar o alvo na ferida aberta pelo inimigo, ou podem ser seres alados que sobrevoam os campos de luta, ou ainda, os dentes do dragão que trituram as injustiças.
 
Seu alvo é a realidade, que suplanta qualquer ficção... As palavras são armas mortais e Ariel sabe bem disso. Ele usa as flechas certeiras que chegam ao coração do leitor. Todo o seu livro é um libelo ardente contra a infâmia de quem governa uma cidade. Uma cidade sem chance de dar uma vida sadia aos seus habitantes, uma cidade destruída pela usurpação do meio ambiente por indústrias poluidoras. Uma cidade que será lembrada pela memória das crianças inocentes condenadas à morte antes mesmo de seu nascimento - a cidade dos anjos afogados.
 
Somente um  poeta como Ariel teria o poder de expressão necessário para escrever esse Tratado. Somente ele alimentaria a sensibilidade necessária para traduzir a tristeza revoltada em seus versos e transmitir aos leitores, que fatalmente não serão os mesmos de antes da leitura. E não é essa a finalidade da palavra? A  de transformar mentes? A de fazer enxergar nas entrelinhas de um poema a verdade que não se quer ver?
 
Que espantalho seria mais impressionante do que o Espantalho de Ariel?
 
No meio do lixão/visão do alto/uma calça e uma camisa/São a evocação do corpo/de um homem/sem sapatos/suas mãos/dois urubus rasgando um saco/sua cabeça/um rato 
 
Ariel não é o Poeta. Ele é personagem que percorre as páginas do livro como andante impotente de um apocalipse imposto. Somos tocados por suas palavras e nos sentimos tão impotentes quanto o Poeta sofrido. Vivemos naquelas ruas, naqueles cantos, nos esconderijos impostos, enquanto estivermos mergulhados no universo do Tratado dos afogados. É um tratado sem solução, onde as tratativas lutam contra um tempo apoderado  por mutantes indefesos.
 
Não posso comparar Ariel a Don Quixote, que lutava contra exércitos imaginários, ou igualar o Poeta ao louco cujos delírios geram seu mundo; não, Ariel trabalha com a  realidade de um povo. A realidade de Ariel é a nossa realidade e sua prosa poética, a tocha que ilumina esse caminho de trevas que foi fabricado por seres que não são de papel, mas de carne, ossos, sangue e dor. Talvez Ariel possa ser comparado a um super-herói que saltou dos quadrinhos para a cidade fantasma. “Enquanto nós as ficções-vidas manipulamos um cubo de trevas dentro do não”.
Ao contrário de Maiakokovisk “...E porque não dissemos nada/já não podemos fazer nada.”, Ariel fala e grita, acusa e sofre, condena e culpa.
 
Se Dante descreveu o inferno, Ariel viveu o inferno e portanto tem mais autoridade para falar dele. Shakespeare afirmou Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente. É o caso de Ariel. Ele sente. Ele denuncia. Ele compara. Ele sofre. Keats nos diz que “a thing of beauty is a joy forever”. Marcelo Ariel nos diz: “Doce é o sangue da luz desenhando um rosto em volta de um Crânio vazio”.
 
Leiam Ariel, sintam as ranhuras das unhas afiadas do torturador invisível em sua pele sensível, preencham as lacunas com o recheio da dor e o sangue das crianças. Mas percebam o quanto de ternura e melancolia existe nesses códigos negros que caminham por essas páginas brancas, outrora virgens.
 
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*Nilza Amaral, ficcionista brasileira, autora, entre outros, de O Florista

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

DISCOS QUE DEVERIAM EXISTIR 1 :


Inicio aqui esta série em parceria com a designer Regina Barbosa, espero que em alguma dimensão paralela  exista este disco de João Gilberto cantando as canções do Cartola.
Imagino João Gilberto cantando por exemplo: As Rosas não falam, O mundo é um moinho e outras, não é difícil imaginar o sublime.


Marcelo Ariel

  

Domingo, Novembro 08, 2009

SOBRE "A PALAVRA" DE CARL DREYER :




Ordet ( A Palavra) é um filme sobre a fé como possibilidade e sobre a iminência do milagre ou do sobrenatural mediado por uma ética que atravessa o esvaziamento,uma ética radicalmente cristã, mas não totalmente religiosa,explico-me, em suas raízes mais profundas as religiões se relacionam pragmaticamente com a fé como uma poética,poética da qual hoje se distanciam cada vez mais porque estas mesmas poéticas que as originaram foram convertidas em doutrinas burocráticas generalizantes, em Ismos. Cristo e sua poética são identificados com o cristianismo que é hoje a simulação simbólica de uma  poética, Buda com o bdismo e etç... Este é um dos temas implícitos na peça do pastor e dramaturgo protestante dinamarquês Kaj Munk fielmente adaptada por Dreyer.
Em Ordet ( A Palavra) a câmera a partir da visão de um drama familiar elabora uma densa reflexão sobre uma ética-mítico-poética que está nas origens do cristianismo enquanto ontologia,a aparente simplicidade da direção de Dreyer esconde a busca do não-julgamento e não-conceituação sem o distanciamento subjetivo, é como se a câmera  simulasse o olhar de um anjo de Wim Wenders ( Um cineasta cuja obra apresenta uma insuspeita influência de Dreyer).
O não-julgamento ou não-conceituação é a essência do amor incondicionado que é justamente o paradigma de uma ética primordial evocada pelo filme de Dreyer/Munk.
O julgamento-conceituação leva ao oposto do amor incondicionado, à separação e ao distanciamento, no filme as figuras do médico ( a ciência) e do pastor (a doutrina generalizante) e do pai ( o esvaziamento) são exemplos da impossibilidade do aparecimento do milagre ou do sobrenatural e o amor incndicionado em Ordet está dentro desse campo sendo a morte seu limite originário. O que Ordet ( A palavra) nos ensina é que uma ética poética pode ser sustentada pela iminência do milagre ou do sobrenatural e que o aparecimento do milagre sobrenatural  no mundo da lógica e da burocracia, do esvaziamento e do distanciamento platônico depende muito do aprofundamento do nosso olhar, depende de um olhar capaz de sair de si mesmo e se dissolver no amor, como se o amor fosse ele mesmo o milagre, é preciso que esse olhar se mova na dimensão não-platônica e não-dicotômica , na dimensão  do amor absoluto ao outro, na dimensão da fé absoluta, uma dimensão onde não existem fronteiras entre os santos, os loucos, as crianças, os vivos e os mortos. É preciso que este olhar tenha ele mesmo um olhar que atravessa os extremos do ser em direção ao não-ser.


Marcelo Ariel fragmento de texto lido no Ciclo de palestras "Encontro com a literatura e  cinema" na Biblioteca de Cubatão em 29 de Outubro de 2008.


Domingo, Novembro 01, 2009

UMA ONDINA PARTE 2 :


Também retorno sempre para a escritura de Sophia de Mello, ali o anúncio da vinda da criança-oceânica e a profecia de um Mar cada vez mais interiorizado, atualmente temos medo do mar-oceano porque temos medo de nós mesmos, da nossa vocação para o suicídio-coletivo em câmera lenta, a escritura de Sophia nos reconcilia com um mar interiorizado,o mesmo mar assustador de Odisseus, que dialoga com a pergunta essencial e com o sono do não-lugar, certamente esse Mar não é o mesmoque hoje provoca o pânico-apocalipse cinematográfico, porque entre o medo ( fonte de autoconhecimento) e o pânico ( fonte de opaciamento e Sol da negatividade) existem muitos abismos sondáveis.

Marcelo Ariel.

UMA ONDINA PARTE :



Volto  sempre a Pina Bausch, acabo de reler o conto de Ingeborg Bachman ( Ondina parte) e sinto que Pina Bausch era a encarnação da personagem mítica do conto, quero dizer, agora sinto isso como uma verdade ontológica, obviamente a morte joga o ser para dentro enquanto a vida-esfinge atira o ser para fora e esse conflito talvez se torne parte da asustadora beleza do mundo apenas se o dançamos através e não em torno do mistério das coisas.

Marcelo Ariel, aqui, ali e em lugar algum, câmbio.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

AMANHÃ NA LIVRARIA DA VILA :




 Lançamento do novo livro de Juliano Garcia Pessanha
 na Livraria da Vila da Alameda Lorena a partir das 19hs.



" Este livro é um ensaio de redescrição pós-metafísica do ser humano. Pensa a existência humana e as culturas a partir do trânsito topológico entre o abismo-fenda, o alético-emergente e o mundo historicamente instituído. Essa topologia possibilita um diagnóstico das culturas em geral (e da cultura contemporânea em particular). Ela também torna possível uma clínica, pois a existência de cada homem também se inscreve e se decide em algum lugar da distribuição topológica. A localização equivale à apropriação do "quem". O livro introduz também a noção de atravessamento. Atravessamentos são os tipos de experiência que fazem a movimentação topológica. Assim, a filosofia e a literatura contemporâneas são lidas como tematizadoras de tipos de atravessamento. Kafka: o homem nascido pela fenda e a "etnologia" do instituído. Nietzsche: a ruptura com o instituído e o desdobrar do desconhecido. Heidegger: a experiência de si no atravessamento negativo e as potências do desfazimento. Essa síntese ilustra bem o caminho empreendido e a possível fecundidade dessa chave de leitura."

( Fonte: Site da editora)